quinta-feira, setembro 11, 2003

O que Ben Laden ganhou

YASMIN A. BROWN Colunista do The Independent


Este artigo é problemático para mim. Escrevo para reflectir sobre o 11/9, porque sinto que tenho de estabelecer um equil�brio sobre os excessos e exageros, o merchandising do desgosto, a insist�ncia e as exorta��es que aparecem nos nossos meios de comunica��o nesta altura e que s�o infalivelmente repetidas em muitos outros pa�ses. Esta � a semana em que o mundo se sente pressionado para afirmar � Am�rica que ela foi violada da forma mais cruel e imperdo�vel do que qualquer outra na��o, antes ou desde ent�o. Isto � uma burla, uma nega��o terr�vel da ang�stia sofrida por todos as outras na��es atrav�s da hist�ria recente.

Ao escrever sobre os acontecimentos perto do seu anivers�rio, coloco-me inevitavelmente entre os muitos que correm a colocar as suas oferendas no altar do sofrimento americano, que n�o se atenuar�. Nem o �dio venenoso desses mu�ulmanos (uma pequena mas dura minoria) que se regozijaram ao saber dos ataques.

A 11 de Setembro, esta semana, alguns deles recordar�o os �Dezanove magn�ficos� - os suicidas respons�veis pela viol�ncia. N�o est�o s�s na vontade de profanar a mem�ria dos que morreram. Um artigo de um tal �Michael Santomauro� (algu�m o conhece?) apareceu na Internet. Ele n�o sente qualquer compaix�o pelas pessoas que morreram porque eram americanos �t�picos� que nunca se preocuparam com as mentiras e as pol�ticas destrutivas dos governos dos EUA. �E ent�o? Quem se preocupa? Bombardeiem-nos todos! Aos olhos de Deus nunca ser� sentida a falta desta gera��o de americanos�.

Dois anos ap�s os ataques selvagens que vitimaram tantos e o optimismo que eram os EUA, este pa�s ou os seus inimigos figadais aprenderam algumas li��es realmente �teis? Estaremos hoje mais seguros? Um redundante n�o, � a resposta a ambas as quest�es.

S� os loucos e os neoconservadores Republicanos acreditam que hoje o mundo � mais seguro do que h� dois anos ou que as suas armas colossais e a arrog�ncia proteger� a superpot�ncia de novos ataques terr�veis. S� os loucos e os fascistas isl�micos acreditam ainda poder derrubar os EUA e criar um para�so mu�ulmano global. N�s, os restantes, estamos cada vez mais inseguros. Onde est� a autocr�tica, a honestidade, a revis�o pol�tica e religiosa que devia ter ocorrido ap�s o 11/9?

Houve um momento (demasiado breve) em que as ondas de ang�stia, raiva e inesperada vulnerabilidade fizeram os EUA pensar nas causas desta viol�ncia que chegou num dia azul, brilhante, esmagando, queimando, matando mulheres, homens, m�es, pais, filhos, filhas, amantes, amigos, de todos os estratos sociais.

H� poucos meses Al Gore, recordou ao seu pa�s esse momento de autoquestionamento que considerou, correctamente, ter sido desperdi�ado. Autocomisera��o incur�vel, desejo de vingan�a e agressividade varreram o desgosto tr�mulo e as perguntas que os americanos, finalmente colocaram a si pr�prios e ao seu arrogante governo. A vit�ria legalmente duvidosa de Bush Jr garantiu que essa busca de alma fosse varrida do discurso p�blico. Hoje, aparte o habitual coro de honrosos dissidentes _ Noam Chomsky, Gore Vidal, Susan Sontag, Edward Said _ os EUA est�o a refor�ar os piores aspectos da sua pol�tica e cultura e a afastar tudo o que tornou e torna esse pa�s admirado por milh�es. E os seus grupelhos de direita continuam a n�o ver a verdade.

A chamada terra das liberdades tem espi�es em bibliotecas, escrit�rios e bairros. Estrangeiros s�o detidos sem acusa��o, (os n�meros s�o desconhecidos) e deportados para s�tios que desconhecem. Podem ser mu�ulmanos, hindus, sikhs, qualquer pessoa de pele escura. Freiras e pais de soldados que tentam participar em protestos antiguerra s�o impedidos de l� chegar. Uma cobardia descarada infectou os jornalistas mais liberais e hist�rias parciais s�o dadas para o p�blico engolir. Um pa�s que se orgulha de sempre ter suspeitado de governo em excesso, como deixa Bush safar-se?

Michael Meacher deu novas provas de que 11 pa�ses alertaram Bush sobre prov�veis ataques contra os EUA. Nada foi feito. Onde est� a f�ria do povo americano? No seu novo e notoriamente corajoso livro What Next?,o escritor negro americano Walter Mosely faz as perguntas que o pa�s deixou de fazer. Escrito para afro-americanos (que t�m de lidar com a confus�o de ver dois dos seus liderar estas pol�ticas de autodestrui��o) diz: �Sabemos que a pol�tica externa do nosso pa�s tem como objectivo ganhos imperialistas, n�o a expans�o da democracia. Se, na Am�rica, muitos sabem destas coisas porque n�o conseguem mudar o rumo dos acontecimentos mundiais? Quero contestar a nossa poderosa necessidade de dominar os inimigos. Quero ir para al�m dos nossos medos e preconceitos...� Para o conseguir os EUA t�m de aprender a valorizar as vidas humanas que n�o sejam americanas.

Espantosamente, por todo o mundo as pessoas est�o ainda divididas entre a admira��o pelos EUA e o ressentimento face ao seu poder incontestado. Uma sondagem, feita pelo British Council em pa�ses mu�ulmanos, revelou que os dois pontos de vista est�o presentes entre a juventude. Mas o tempo matar� a boa vontade, se os EUA n�o se tornarem sensatos.

As not�cias da outra frente n�o s�o melhores. Mu�ulmanos de todo o mundo acordaram para o facto de que a sua f� estava a ser corrompida pela intoler�ncia e o fascismo e que tinham de reivindicar a religi�o, mas descobrimo-nos cada vez mais impotentes ao ver tais ideias seduzir a juventude. Demasiados mu�ulmanos inteligentes e educados no Ocidente (como a maioria dos terroristas) est�o a repudiar o melhor que ele nos deu. Alguns de n�s falamos da necessidade de uma reforma, das transforma��es a realizar, das nossas lealdades complicadas que nunca podem ser s� para com o Isl�o.

Mas as nossas vozes s�o abafadas pelos gritos dos militantes. Os mu�ulmanos, que durante tanto tempo se sentiram desamparados, sem orgulho nem for�a, est�o agora numa for�a de pensamento e alma doentia e raivosa, diz o poeta franco-tunisino Abdelwahab Meddeb no seu novo livro, O Isl�o e os Seus Descontentes. O 11/9 s� os tornou mais doentes.

Nesse sentido Ben Laden ganhou. Criou o caos global e muita avers�o; distorceu as mentes dos mu�ulmanos e desestabilizou-os; permitiu aos EUA que se comportassem duma forma ainda mais monstruosa.

Lembrem-se disto quando assistirem, quinta-feira, � lavagem sentimental.