quinta-feira, setembro 11, 2003

Washington Fez Tudo para Derrubar Allende

Por PASCAL RICH�*
Quinta-feira, 11 de Setembro de 2003

No dia 19 de Fevereiro, durante uma mesa redonda com estudantes de liceu, o secret�rio de Estado norte-americano, Colin Powell, foi interrogado sobre "o golpe de Estado que os Estados Unidos organizaram no Chile, em 1973". Sem p�r em causa a pergunta, o chefe da pol�tica externa americana respondeu: "N�o � uma parte da hist�ria de que possamos orgulhar-nos." Pela primeira vez, um respons�vel norte-americano reconhecia o papel dos EUA no levantamento militar contra Salvador Allende. O coment�rio teve o cond�o de enervar alguns dos actores da �poca. William Rogers, encarregado da Am�rica Latina no Departamento de Estado nos anos 70, acusou Powell de "alimentar uma patranha". Assim, desde a desclassifica��o dos documentos relativos a este per�odo, decidida pelo Presidente Clinton, as d�vidas acabaram: "Se os Estados Unidos n�o participaram directamente na conjura de 11 de Setembro de 1973, fizeram tudo para preparar o terreno para um golpe militar contra Allende, que era um dirigente democraticamente eleito. A sua responsabilidade n�o � menos grave", afirma Peter Kornbluh, investigador dos Arquivos de Seguran�a Nacional, em Washington.

48 horas para um plano de ac��o

Kornbluh, 47 anos, jogou um grande papel, em 1999 e 2000, para facilitar a desclassifica��o dos arquivos da CIA. Sempre que a ag�ncia de informa��es resistia a publicar certos documentos, ele convocava a imprensa. Explorando a enorme massa de pap�is desde ent�o no dom�nio p�blico (1), acaba de publicar o livro "The Pinochet File" (The New Press). � o quadro mais completo at� hoje sobre o papel desempenhado pelos Estados Unidos no Chile. A implica��o norte-americana come�a logo no dia 15 de Setembro de 1970, decorridos apenas onze dias sobre a elei��o de Allende. Durante uma reuni�o na Casa Branca, o Presidente Nixon ordena � CIA que impe�a a investidura do l�der socialista, prevista para o diz 4 de Novembro. As notas manuscritas tomadas durante uma reuni�o pelo director da ag�ncia, Richard Helms, testemunham-no: "Uma possibilidade em dez talvez, mas salvar o Chile!" "N�o implicar a embaixada.". "Dez milh�es de d�lares, ou mais se for preciso.". "Trabalho a tempo inteiro, os nossos melhores homens.". "48 horas para um plano de ac��o.". Helms leva estas orienta��es para os seus servi�os: "O Presidente Nixon decidiu que um regime Allende no Chile n�o � aceit�vel para os Estados Unidos. Pede � ag�ncia que impe�a Allende de aceder ao poder, ou que o deponha ["unseat him"]. N�o era preciso ser mais claro. Uma "task force" foi criada, confiada ao agente David Philips. Foi o projecto "Fubelt" (2). Henry Kissinger, conselheiro para a Seguran�a Nacional, supervisionaria tudo.

O lan�amento da Track II

A CIA desenvolve a Track II (Pista 2), assim chamada para a distinguir da campanha contra Allende realizada em coopera��o com a embaixada americana e o Presidente chileno democrata-crist�o, Eduardo Frei. O objectivo da Track II � identificar os militares capazes de levar a bom porto um "putsch" e de lhes levar uma ajuda financeira e um apoio t�cnico. Quatro "bandeiras falsas" (agentes capazes de esconder a nacionalidade americana) s�o enviados para Santiago para refor�ar a "esta��o" da CIA. Apenas descobrem "um �nico dirigente militar de estatura nacional aparentemente decidido a expulsar Allende pela for�a", mas mesmo ele � insuficientemente brilhante: trata-se do general na situa��o de reforma Roberto Viaux, que j� tinha, sem sucesso, tentado derrubar Eduardo Frei, em 1969. Apesar da opini�o desfavor�vel do embaixador Edward Korry, o posto da CIA em Santiago advoga o apoio directo a um "putsch". No dia 5 de Outubro, Kissinger d� luz verde. Vinte e quatro horas depois, a CIA, em Langley (sede da ag�ncia nos arredores de Washington) envia uma mensagem para a sua equipa em Santiago: "X [nome censurado] ordena-vos que contactem o Ex�rcito para lhe fazerem saber que o Governo americano deseja uma solu��o militar e a apoiar�, agora ou mais tarde.". H� um obst�culo no caminho dos candidatos ao "putsch". Chama-se Ren� Schneider, � o chefe das for�as armadas e tem o agravo de obedecer � Constitui��o e ao primado do poder civil sobre o militar. A CIA decide ent�o "apadrinhar", no momento oportuno, o seu rapto. Financia e arma Viaux e os jovens oficiais que lhe est�o pr�ximos. Quando o ex-general pretende tentar o golpe, a CIA op�e-se, julgando a ac��o prematura. "Preserve os seus efectivos. Vir� o tempo em que o senhor e os seus amigos poder�o agir. Continua a ter o nosso apoio." Por�m Viaux n�o ouve. Rapta Schneider e mata-o, mas a conspira��o fracassa. A CIA tenta abafar a quest�o, continuando a financiar o grupo de amotinados e comprando o seu sil�ncio com 35 mil d�lares. Nixon envia a Frei um mensagem de condol�ncias pelo "repugnante acontecimento".

"Fracassou, o filho da m�e"

Allende acede ao poder no dia 4 de Novembro de 1970. O epis�dio Schneider arrefeceu Washington. Por�m o objectivo "derrubar" Allende permanece, como o testemunham as actas do Conselho Nacional de Seguran�a do dia 6 de Novembro. "Temos de fazer o poss�vel para o prejudicar, para o fazer cair", diz ent�o o secret�rio da Defesa, Melvin Laird. A ideia de ajudar directamente os conspiradores foi enterrada, mas todos os esfor�os s�o feitos para criar "um clima de golpe de Estado": levantamento de um "bloqueio invis�vel", financiamento do jornal de direita "El Merc�rio" e do Partido Nacional, etc. O grupo de telecomunica��es ITT ajuda a CIA a favorecer o caos econ�mico. Mas sem tomar muitas precau��es: alguns documentos chegam ao "Washington Post", que publica um artigo sobre as conspira��es norte-americanas. Indigna��o em Santiago, idem no Congresso americano. Nixon fica furioso com o embaixador Korry, cujas palavras s�o mencionadas nos documentos da ITT reproduzidos pelo Post (ele explica que Nixon lhe ordenou que fizesse o poss�vel para impedir a chegada de Allende ao poder). "De onde � que isto saiu?" - enerva-se Nixon numa conversa telef�nica, acrescentando: "Pronto, � verdade. Ele recebeu essa ordem. Mas falhou, o filho da m�e! Esse � que � o problema. Ele devia ter impedido Allende de chegar ao poder!"

"Golpe de Estado pr�ximo da perfei��o"

O Congresso abre um inqu�rito. Apesar das press�es dos "duros" do escrit�rio da CIA em Santiago, a ag�ncia desaprova qualquer ajuda directa aos candidatos golpistas. No dia 8 de Setembro de 1973, a ag�ncia � avisada de um golpe de Estado em prepara��o. Alerta a Casa Branca. No dia 11, transmite um pedido dos conjurados: os Estados Unidos ajud�-los-�o se as coisas correrem mal? Washington n�o v� necessidade de responder: "O golpe de Estado ficou pr�ximo da perfei��o", declara entusiasmado o tenente-coronel Patrick Ryan, encarregado das for�as navais americanas em Valpara�so, num relat�rio que envia a Washington.

(1) www.gwu-edu/~nsarchiv/latin_america/chile.htm
(2) O c�digo do Chile no jarg�o da CIA

*Exclusivo P�blico/Lib�ration